Tecnologia – rápidos demais

Alguns posts abaixo eu listei um monte de filmes sobre o Hitchcock. Agora conto como consegui assistir esses filmes (e mais alguns depois): no computador. Um colega meu do trabalho baixa filmes e seriados, e aproveitou para levar alguns filmes para lá. Assisti os filmes, gostei deles. De alguns eu gostei tanto que resolvi comprar o DVD do filme. Normal.

Normal no meu ponto de vista, claro… Quando falei pro cara que comprei o DVD do filme, pareceu até que eu tinha dito que havia atirado no prefeito. “Pô, cara, tu comprou o filme que tu tem no pc?”. “Ué, e por quê não?”, interroguei.

Parece que a humanidade hoje evoluiu a um ponto pra lá de curioso. Fomos escravizados pela tecnologia. Sim, pois hoje não se vive sem qualquer tipo de tecnologia, seja ela um computador ou uma televisão LCD, ou um mero ventilador. Tecnologia é uma coisa maravilhosa, factum est. Ela evolui constantemente, e a cada dia ela se transforma, e cada vez mais rapidamente.

A humanidade hoje vive o “tudo ao mesmo tempo agora”. Queremos absorver informações já, sem pestanejar. E consequentemente também queremos logo as novidades tecnológicas do momento: iPod, iPhone, Windows Seven; Google Chrome, Playstation 3, Nintendo Wii, Blu-ray, Pendrive 128 Gb; “Quero um PC com 1 Tb de memória e monitor 3D”. Querer tudo ao mesmo tempo agora é bom, é saudável, é humano… está no nosso direito… as vontades e providências tomadas fazem parte do esquema do mundo, o consumo material move o planeta, mas… pare um instante e se pergunte: por quê eu quero? (ou melhor: por quê eu preciso?)

Surge um paradoxo: embora a rapidez nos avanços tecnolóides nos ajude a progredir enquanto humanos, esse mesmo avanço prejudica algumas das nossas virtudes humanas. (Complicou muito? Eu chego lá dando um exemplo curioso). Streaming de conteúdos (áudio ou vídeo) pela internet. O streaming te permite assistir uma série ou um filme sem precisar baixá-lo. Foi uma solução encontrada pelas grandes corporações de cinema e televisão para proteger seu conteúdo. Solução louvável sob alguns aspectos, ok. Quem é fã de uma série pode assistir pelo computador sem maiores problemas. 

Mas pense numa coisa: onde foi parar aquele costume tão interessante, de chamar os amigos e colegas para sua casa para conversar um pouco, fazer um lanche, e aí sim assistir a mesma série pela TV?

Hoje em dia a situação evoluiu, mas não de uma maneira muito aceitável. Amigos e colegas ainda se reunem para ver filmes ou séries, mas não é na frente da TV acomodados no sofá: é de frente pro computador, de pé e agachados olhando para o monitor. Não é lá muito confortável (nem saudável).

E por quê fazemos assim hoje em dia? Simples: por uma questão de comodidade, para economizarmos tempo. Pense no tempo que gastaríamos em ligar o aparelho de DVD (ou VHS em alguns casos), ajustar a TV e o filme… isso é fato, porém, pergunto novamente: por quê “economizar tempo”? Se você reune os amigos para conversar, se divertir, enfim, relaxar de fato… para quê querer economizar tempo? O tempo passa no mesmo ritmo sempre… e você está lá para esquecer que o tempo exige que você seja dinâmico. Hora de lazer não é hora de se estressar com a rotina de um dia de trabalho agitado.

A tecnologia às vezes nos priva de coisas cujas pessoas não podem viver sem. Hoje em dia você encontra irmãos que quase só se comunicam pelo computador, sendo que o quarto de um fica ao lado do quarto do outro, e isso é meio (muito) absurdo. 

A melhor maneira de se entender alguém é pessoalmente. As pessoas precisam de outras pessoas para serem o que são. Assim como você precisa de ar, água e comida, você necessita de contato físico, e de se comunicar falando e ouvindo. Embora o MSN, o email e o VoiP sejam coisas maravilhosas (e em alguns momentos eles até sejam a única forma de comunicação), eles não substituem a sua necessidade de interpretar o olhar e o tom de voz do outro para compreendê-lo.

Você pode ser um aficcionado por qualquer novidade tecnológica sem culpa, mas no fundo você sabe que não pode viver somente cercado de fios, telinhas e luzes piscantes… você sabe que precisa conhecer pessoas novas, sentir o cheiro do perfume daquela moça ou do desodorante daquele rapaz, que precisa dar uma volta na praia, campo ou shopping, caminhar ou dirigir… enfim, ser uma pessoa, e se envolver com algum semelhante.

Assim sendo, assistir um filme ou ouvir música envolve muito mais coisa do que simplesmente baixá-los da internet e colocá-los no seu MP4. Quando se ouve música, por exemplo, é preciso ouví-la com calma, apreciar sua sonoridade, prestar atenção na letra (quando tiver) e ainda se possível se divertir ao tentar identificar o som de uma guitarra, um baixo, um violão ou efeito sonoro curioso… quanto aos filmes ou seriados, é necessária a mesma atenção: ver com calma cada cena, cada diálogo, entre outros…

E ainda existe outra questão interessante: o material físico. Não é bom quando pegamos um CD ou vinil e folheamos o encarte, vemos fotos do artista, lemos as letras das canções e o release do álbum? O mesmo se aplica ao DVD (ou Blu-ray), onde podemos ler a ficha técnica do filme ou show… e tudo isso com mais uma vantagem: a garantia de qualidade. Se você baixa algo da net, não há tanta garantia que a mídia venha perfeita.

***

Não foi à toa que estranhei quando me trataram como um E.T. quando eu disse que comprei os filmes que eu tinha no computador. A coisa chegou em tal ponto, que a decisão comum se tornou absurda. Antes era normal você comprar CD ou DVD. Hoje virou uma coisa estranha: “Pra quê comprar, se na net você encontra?”. N fatores, como ditos acima: qualidade do produto, informações adicionais, o produto na forma física, et cetera 

Mas existe ainda o fator bom senso: se você ouviu o som de um artista e curtiu, você compra o CD ou DVD do mesmo para ajudá-lo em suas vendas. É a sua forma de dizer ao artista que você gostou de seu trabalho. E nada melhor do que ter um registro oficial na sua mão, não é? Quando vale a pena, o dinheiro você gasta feliz. 😉

***

Ouvi uma vez (e nunca mais esqueci), que em certa ocasião alguém chegou para a Madre Teresa de Calcutá e lhe perguntou porque ela era tão devagar. Ela sabiamente indagou: “Sou eu que estou indo devagar? Não será o mundo que está indo rápido demais?”. Matou a charada. O “tudo ao mesmo tempo agora” é quem nos tornou o que somos hoje. Temos tanta pressa em engolir as novidades que mal temos tempo de digerir as coisas “antigas”. E é justamente essa pressa que nos afasta das coisas mais simples. Precisamos usar melhor o nosso freio, a reaprender a apreciar as coisas com tranquilidade, sem afobação. E é claro, devemos não esquecer de como se convive em família e sociedade. Se você tiver uma chance de fazer uma farra na sua casa ou na casa de um colega, faça! Se quiser, alugue aquele filme que todos queriam ver, prepare o sofá (ou tapetinhos), e use alguns dos aparelhos tecnolóides (microondas, geladeira, DVD) como bem entender. Mas com moderação, e sem pressa! 

Pense nisso.

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4 Respostas to “Tecnologia – rápidos demais”

  1. Carolina Lobato Says:

    UAU!!
    Primeiramente, vc escreve muito bem. Pensamentos ordenados, boa construçao e argumentos sobre o assunto, boas colocaçoes e uso das palavras. (nao , nao sou professora de portugues rs).

    Concodo tanto com vc, que ainda sou mais antiquada, gosto de ir a locadoras para alugar um filme. Nada como me ver envolta de um monte de titulos, ver as capas de uns 100, ler as sinospes de uns 50, e alugar um.

  2. Amanda Mattos Says:

    Acho que a pergunta “por que eu preciso?” resume bem a idéia do post. De fato não precisamos de todo esse aparato tecnológico, mas nos fazemos dependendetes dele e por quê? Porque somos lobos famintos e queremos mais, sempre mais, não digerimos, não degustamos , nós queremos engolir mais e mais até um dia quem sabe, explodir!

    Sinto falta da época em que eu sentava em frente a vitrola limpando um disco enquanto ouvia um outro, analisar a rotação e viajar na música, deitar na cama para ouvir o Cd raul, ler as letras no encarte e mais uma vez viajar pensar… Por vezes me pergunto para onde foi aquela Amanda. Por vezes me sinto superficial, dominada e domana pela sede do novo. É estranho vejo o erro mas é complicado me desvincular de toda essa voracidade, me obrigo a separar tempo para ficar andando, analisando o nada, a natureza; para papear com meus amigos num bar ou numa praça. Sinto falta de isso ser constante e mais natural, de não ser escrava do msn e do e-mail; Hoje não visito ninguém sem antes falar pelo mensenger, antes eu chegava com uma bebida ou um bolo gritando surpresa.. rsss

    é realmente estranho….. Somo estranhos….

    Acho que ainda tenho salvação, afinal, também sou uma E.T. que compra DVDs.rs

    Beijos, ótimo post Conterrâneo!

  3. Adorei, concordo com tudo o que vc disse. Realmente as pessoas ficam muito espantadas quado falo que vou a locadora alugar filme. É triste ver como os seres humanos tem se tornado cada vez mais individualistas por causa da tecnologia. Hoje em dia ler um livro é sinal de que vc realmente é muito culto ou muito nerd, coisa que antes era normal. A tendencia é piorar, mas fazer o que?As pessoas escolhem o melhor para si.
    Adorei, beijos.

  4. Amanda Says:

    Seguindo a Lei do Blog!
    ótimo Post

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