Mais um texto sobre a tecnologia transformando as pessoas desde quando elas eram crianças

Achei um texto muito interessante de uma moça chamada Lilian Ferreira (editora de Ciência e Saúde do UOL) falando sobre a relação entre tecnologia e as novas gerações, um assunto que eu curto bastante.

Mas confesso que só coloquei o texto no meu blog porque o site original é meio confuso e pesado demais pra se navegar. E só por isso mesmo! (Rsrs) Mas o link original estará devidamente creditado.

“INTELIGÊNCIA SOCIAL – Por Lilian Ferreira

O casal estava preocupado. A filha de três anos não interagia com outras crianças. Foram ao pediatra ver qual era o problema. Em poucos dias, a menina brincava com os outros, como os próprios pais faziam na infância. Qual foi o remédio? Bastou tirar o celular e o tablet da criança quando ela estava em grupo.

Temos que reaprender a interagir PESSOALMENTE?

As pessoas, principalmente as crianças, precisam de um cara a cara. Falta olho no olho na sociedade. Hoje, quando se fala com amigos, parentes e afins, é por meio de redes sociais e mensagens de texto. Até a voz tem virado coadjuvante nessa relação. Na possibilidade de uma interação de corpo supostamente presente, a alma e atenção de um – ou de ambos – estão no aplicativo pelo qual é possível falar com outro grupo que, claro, não está ali. Quando o encontro é com essa turma sensacional, alvo de tantas mensagens, a situação naturalmente se inverte.

Esse comportamento comprova a mais pura falta de inteligência. Sim, de inteligência. Social. Se a primeira metade do século 20 foi dominada pelo QI, a inteligência racional, em que “saber coisas” apontava a capacidade de uma pessoa, e os anos 90 foram tomados pelo QE, o emocional, no qual era importante entender e lidar com suas emoções, o século 21, em meio à explosão das mídias digitais e dos aparelhos móveis, valoriza e pede socorro à inteligência social, que nos permite entender o outro, reconhecer expressões e interagir (melhor) em sociedade – coisas que aprendíamos naturalmente, mas, sob o efeito colateral da revolução das novas tecnologias, precisamos agora de uma forcinha para assimilar.

“Humanos não podem viver fora da sociedade. O sucesso social é a chave para alcançarmos todos nossos objetivos culturais e biológicos.”                                                                                                                                                             (Nicholas Humphrey, psicólogo inglês autor do livro “Inner Eye: A evolução da Inteligência social”)

A necessidade de recuperar essa interação é tamanha que alguns cientistas afirmam que, hoje, empatia e reconhecimento de emoções deveriam ser ensinados na escola. “A tecnologia é uma realidade e nos privar dela é impossível, então temos que viver da melhor maneira possível estimulando a cognição social”, afirma Mirna Wetters Portuguez, pesquisadora do Instituto do Cérebro da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

E por que sermos sociais? Primeiro porque faz parte da evolução. A ciência diz que viver em sociedade é o que faz do homem o animal mais desenvolvido – uma teoria aponta que o cérebro humano é maior que o de outras espécies devido à alta complexidade de nossas interações sociais face a face. Depois, porque conviver com pessoas traz benefícios à saúde: quem não tem amigos ou círculo social vive menos e pior. Por fim, um motivo ligado à seleção natural do homem moderno: para se destacar na carreira é importante ter um bom networking, além de saber lidar bem com pessoas para desenvolver projetos e trabalhos.

REDES SOCIAIS TAMBÉM OFFLINE

O uso de novas tecnologias tem causado impactos sobre o cérebro, sobre a inteligência e na maneira como convivemos. “A exposição diária a tecnologias como internet, smartphones, tablets, TVs, videogames etc. tem impacto na estrutura e funcionamento microcelular e bioquímica do cérebro, que por sua vez pode afetar nossa personalidade, nosso comportamento e características pessoais”, afirma Portuguez.

As crianças brasileiras são as que passam mais tempo online

Segundo o Ibope, crianças brasileiras entre 2 e 11 anos ficam em média 17 horas por mês conectadas

Um levantamento da Millward Brown Brasil diz que o tempo de crianças de 4 a 12 anos é de 13 horas por semana

Já outra pesquisa, da AVG, indica que 97% das crianças entre 6 e 9 anos no Brasil utilizam a internet

O RISCO DO ANALFABETISMO SOCIAL

Mas o que acontece se não mudarmos essa entrega que hoje parece ser incondicional ao mundo digital? Pesquisas mostram que o cérebro dos nativos desta era evolui de forma diferente: eles são capazes de ser mais multitarefas; têm áreas cerebrais ativadas pelos jogos online, situação não vivida por gerações anteriores; a informação disponível a um clique na internet também estimula o cérebro a criar novas conexões e encontrar informações mais rapidamente. Por outro lado, essa geração tem perdido a capacidade de conviver com outras pessoas.

“Algumas pesquisas apontam que um maior uso do Facebook relaciona-se com maiores níveis de vínculo afetivo, menores níveis de depressão e ansiedade, por exemplo. Mas alguns aspectos da interação face a face mudam, como a capacidade de discriminação de emoções e identificação de mudanças não verbais, como postura, entonação da voz e gesticulação”, afirma André Rabelo, doutorando em psicologia pela UnB (Universidade de Brasília) e autor do canal no YouTube “Minutos Psíquicos”.

“Se você não pratica comunicação face a face, você pode perder importantes habilidades sociais. Nós somos criaturas sociais. Precisamos de tempo livre de aparelhos”, diz Yalda Uhls, principal autor do estudo da UCLA. A ideia de que somos seres sociais por natureza é dividida por Nicholas Humphrey, psicólogo inglês autor do livro “Inner Eye: A evolução da Inteligência social”. Em entrevista ao TAB ele afirmou que os humanos são os animais mais sociais da Terra. “Somos também os mais complexos e imprevisíveis. Entender o outro é um grande desafio intelectual. E nós somos evolutivamente bons nisso. Ou pelo menos éramos. Só somos naturalmente assim se tivermos a oportunidade cedo na vida de experimentar uma grande variedade de situações complexas psicologicamente”, afirma.

Para tirar a prova, fale com pais de adolescentes ou mesmo com alguém da geração Y, aqueles nascidos durante a década de 80 e até início dos anos 90. Ele provavelmente dirá que prefere ter conversas sérias ou difíceis pelo WhatsApp ou algum comunicador instantâneo. É mais fácil dizer o que você quer sem ter que lidar com a expressão do outro. Escrever permite explicar melhor, mas tira muito da naturalidade. “[O jovem] está acostumado a começar e terminar relações de forma virtual, com isso evitando o enfrentamento dos sentimentos. Ele passa por um analfabetismo emocional e talvez tenha que ser alfabetizado em como se relacionar emocionalmente”, afirma Mirna Wetters Portuguez, neurocientista da PUC-RS.

PORTUGUÊS, MATEMÁTICA E EMPATIA

Essa falta de jeito da humanidade em geral é a senha para um boom de cursos e livros que ensinam como paquerar, conversar e interagir. E não pense que isso é coisa de aproveitador: professores da USP (Universidade de São Paulo) estão nessa. Uma associação com cerca de 3.000 empreendedores sociais de mais de 70 países aposta no ensino da empatia para crianças. “Ensinar empatia é tão fundamental quanto leitura e matemática. A empatia é essencial para ter habilidade para resolver conflitos, colaborar em equipes, alinhar interesses, enfim fazer mudanças no mundo”, defende a ONG Ashoka em sua plataforma.

Então voltamos ao começo deste TAB: as crianças terão que ir à escola para aprender a reconhecer faces e emoções alheias, entender entonações e ironias, falar com o outro de maneira adequada, se colocar no lugar do outro e dizer como está se sentindo?

“O atual sistema de educação está falhando amplamente em preparar a geração Y para a força de trabalho, especialmente nas habilidades de comunicação, trabalho em grupo e recompensas por seu desenvolvimento”, afirmam as pesquisadoras Sue Honoré e Carina Paine Schofield no relatório “Geração Y: de Dentro para Fora”. A dupla defende a teoria do construtivismo social, em que estudantes aprendem ao construir seus próprios significados e entendimentos coletivamente, com a interação social sendo o responsável por criar este significado em oposição ao ensino apenas com livros.

“As crianças de hoje são mimadas na escola. Elas não aprendem o que é estar em um time e trabalhar por ele, não por interesses pessoais. Os jovens fogem das partes ruins, mas não é culpa deles. Os pais e a escola os criaram assim. Mas a vida não é feita só de coisas boas. No trabalho principalmente. Eles têm que lidar com situações de conflito, mas não estão aptos para isso. Eles não ouvem, e, em certos casos, só as emoções humanas irão solucionar os problemas.”                                                 (Sue Honoré, pesquisadora consultora da Ashridge Associate.)

Modelo similar é defendido por Raymond Hartjen, educador e autor do livro “Empoderando crianças”. Ele usa a proposta criada na escola Sudbury Valley, em Massachusetts, nos Estados Unidos. A ideia é dar liberdade aos alunos para decidir o que, como estudar e qual o método de avaliação. A tese parte da premissa que as crianças já são motivadas a aprender e a escola deve permitir isso, dando a elas responsabilidade.

“Você não consegue ensinar habilidades sociais na classe. Isso acontece no dia a dia. A segregação por idade nas classes deve ser banida. Escolas livres como a Sudbury permitem que seus alunos pratiquem habilidades sociais diariamente. Existe uma grande relação entre uma boa autodisciplina, autoconfiança e destreza social”, afirma o pesquisador.

Nesse modelo, as crianças são mentoras umas das outras. Ensinam como as coisas funcionam e ajudam a resolver problemas. Isso cria uma ligação entre elas. O mais difícil foi convencer os pais que os alunos precisavam de tempo livre para conviver. “O uso de celulares por crianças é para fugir das amarras da escola tradicional. Já na Sudbury elas interagem”, responde Hartjen ao ser questionado se as crianças de hoje não preferem o celular ao contato real.

Para Mirna Wetters Portuguez, o cuidado dos pais, mesmo em modelos tradicionais de escola, é suficiente para que as crianças tenham limites no uso dos aparelhos. “Noto essa preocupação bastante acentuada em famílias que educam e controlam as atividades dos filhos. Mas há pais mais relapsos, que permitem ou não se importam com o que os filhos fazem, desde que fiquem quietos e não atrapalhem”, afirma.

TUDO FICA ENTRE OS NATIVOS DIGITAIS

Se essas iniciativas chegaram tarde para a geração Y, que tenta se entender – muitas vezes sem sucesso – com colegas mais velhos no mercado de trabalho, há a perspectiva que os projetos de resgate das habilidades sociais do homem não só deem resultado em breve como tornem melhor a vida de gerações futuras. Inclusive no Brasil.

O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) incluiu em sua última avaliação não só matemática, leitura e ciências, mas também raciocínio, autonomia, liderança, facilidade de relacionamento e tolerância. O Brasil ficou nas últimas posições. Para tentar uma melhor posição no Pisa 2015, que ocorre em maio e inclui teste de “resolução colaborativa de problemas”, o Governo tem incentivado pesquisas em competências socioemocionais e capacitação de professores.

“As habilidades sociais não têm sido prioridade nas escolas. Entram apenas informalmente ou em atitudes isoladas. Mas é uma tendência internacional. Uma de nossas preocupações é desenvolver esta inteligência desde cedo, para que a criança aprenda a trabalhar colaborativamente, o que ela vai precisar no mercado de trabalho”, afirma Sandra Garcia, diretora pedagógica da MindLab.

Por outro lado, há especialistas que veem as crianças em fase escolar capazes de unir as habilidades sociais aprendidas tanto online quanto pessoalmente. Paulo Sérgio Boggio, coordenador do laboratório de neurociência cognitiva e social da Universidade Mackenzie, diz que exames mostram o cérebro de jovens reagindo da mesma maneira para emojis e emoticons como para expressões humanas. “Temos a tendência natural de humanizar objetos. As crianças veem ‘;)’ e para elas isso é uma piscada. Elas reagem emocionalmente como se fosse o ato em si”, explica. Boggio diz que as críticas a esse comportamento são normais porque ele é novo para a maioria das pessoas, mas ressalta que para os mais jovens essa é a realidade. “O que é ‘virtual’ para a gente é o ‘real’ para a molecada. Uma pesquisa nossa mostra que eles reagem a uma rejeição virtual de pessoas que nunca viram pessoalmente da mesma maneira como se fosse na vida real”, completa.

Entre os projetos de recuperar a empatia e aceitar a natureza da nova e novíssima gerações, como serão construídas as relações humanas no futuro? “A criança nativa digital poderá ter dificuldade de ler as emoções no rosto, na postura ou na voz dos indivíduos, mas isso será importante no seu relacionamento interpessoal já que a maioria de seus pares funciona do mesmo jeito?”, questiona Mirna Wetters Portuguez. A ideia é não perder de vista quem nos tornamos em milhares de anos de evolução. Um bocado de inteligência social pode ajudar na empreitada.

Texto retirado de: http://tab.uol.com.br/inteligencia-social/

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